tax-summit-2026
Se alguém ainda tinha dúvida de que o mundo tributário subiu de patamar, o Tax Summit 2026, organizado pela Live University, tratou de deixar claro que não estamos mais discutindo apenas “imposto”. Estamos discutindo modelo de negócio, tecnologia, dados e estratégia.
A magnitude do evento evidenciou o protagonismo da área tributária dentro das organizações. Talvez, a maior virada de chave seja que o fiscal deixou de ser uma área reativa e passou a ser uma alavanca ativa de decisão.
Ao longo das trilhas, alguns temas apareceram de forma consistente e, por vezes, até exaustivamente.
E não por acaso: eles estruturam o novo ambiente em que as empresas passam a operar em 2026.
Neste artigo, compartilho os temas que considerei mais relevantes ao longo do evento. Espero que a leitura seja útil e provoque boas reflexões.
Então, bora lá!
A Reforma Tributária (EC 132/23 e suas regulamentações) esteve presente em praticamente todas as discussões. No entanto, o ponto central não está apenas no “o que muda”, mas no que passa a ser exigido das empresas e dos profissionais da área.
A nova lógica de tributação, com a migração da origem para o destino, a mudança do cálculo “por dentro” para “por fora” e a consolidação de um modelo baseado em crédito financeiro amplo é amplamente conhecida. Esse debate vem sendo aprofundado há anos.
O que muda agora é o foco: a discussão sai da teoria e entra na execução.
Para o gestor tributário, a análise não pode mais se limitar ao campo legislativo. O impacto da reforma se materializa diretamente nos números e, principalmente, nas decisões. Estamos falando de efeitos sobre precificação, cadeia de suprimentos, estrutura societária, fluxo de caixa e até a relação com clientes e fornecedores.
Em outras palavras: não se trata de uma reforma “do fiscal”. Trata-se de uma reconfiguração do modelo operacional das empresas.
E aqui cabe uma provocação essencial e amplamente debatida entre os gestores fiscais ao longo do evento: quem ainda está tratando a reforma exclusivamente como um projeto de parametrização de ERP está atrasado.
Sim, a parametrização dos sistemas é crítica e indispensável. Mas é apenas parte da equação. O verdadeiro diferencial competitivo estará na capacidade de estruturar times que atuem em duas frentes complementares: de um lado, a análise operacional, garantindo conformidade, qualidade de dados, execução de dois modelos tributários rodando ao mesmo tempo e implementação de sistemas e IAs; de outro, a análise estratégica e negocial, conectando o tributário às decisões de negócio.
Porque, no fim, não será o sistema sozinho que vai gerar valor — será a forma como a empresa interpreta, antecipa e decide a partir dele. Os sistemas irão garantir o compliance, a governança e a possibilidade de manter dois modelos operacionais.
Se a estratégia da Reforma Tributária define o “o quê”, os sistemas são, sem dúvida, o “como”.
E esse “como” ficou evidente: não existe implementação viável sem uma arquitetura tecnológica robusta, integrada e confiável. E mais do que atualizar ferramentas, trata-se de repensar profundamente a forma como a informação tributária é gerada, processada e utilizada dentro das empresas.
Estamos falando de um ecossistema que envolve ERPs integrados, motores de cálculo, automação de compliance, governança de dados e integração com fornecedores, clientes e adquirentes, tudo funcionando de maneira coordenada, com consistência, rastreabilidade e reforço, tudo com dois modelos tributários que não se conversam.
Ainda assim, a realidade mostra um cenário de transição desigual. Enquanto algumas empresas avançam com simulações e decisões estratégicas baseadas em dados, muitas outras ainda estão concentradas no básico: organizar cadastros, revisar classificações fiscais e estabilizar integrações.
Esse descompasso não decorre necessariamente de falta de capacidade técnica, mas de prioridades, estrutura e, principalmente, da leitura do tamanho da transformação.
Trata-se de uma mudança estrutural, não incremental, e quanto mais esse reconhecimento é adiado, maior tende a ser o custo de adaptação.
A boa notícia é que ainda há tempo para ajustar a rota. A menos confortável é que esse tempo não é tão amplo quanto parece.
Nesse contexto, os sistemas deixam de ter apenas um papel operacional e passam a ser instrumentos estratégicos, especialmente pela capacidade de simular cenários e antecipar impactos. Decisões relevantes passam a depender de respostas rápidas e confiáveis: qual o impacto do IBS e da CBS na margem por canal? Há geração efetiva de crédito financeiro? O fluxo de caixa suporta o timing entre crédito e recolhimento?
Essas respostas exigem bases sólidas e sistemas confiáveis. Sem isso, deixam de ser análise e passam a ser suposição e, no ambiente atual, decidir sem dados não é mais uma opção viável.
Sob a ótica operacional, essa transformação começou a se materializar. A partir de 2026, entram em cena testes práticos com a inclusão dos campos de IBS e CBS, validação de notas técnicas e pré-análises de operações assistidas, permitindo identificar inconsistências com mais agilidade, especialmente em notas fiscais com falhas de emissão.
Esse período funciona como uma fase de calibração dos sistemas e processos, preparando o terreno para o início do recolhimento efetivo da CBS em 2027. Ou seja, não estamos falando de um cenário futuro, mas de uma transição em curso, que impacta diretamente a rotina das empresas.
Diante disso, o papel do gestor tributário se amplia. Se, por um lado, ele precisa garantir a qualidade e a confiabilidade dos dados que suportam decisões de preço, margem e logística, por outro, deve assegurar que os sistemas estejam preparados para essa nova realidade sem perder de vista o funcionamento do on going. É esse equilíbrio entre execução operacional e visão estratégica que passa a definir a maturidade das organizações.
Um ponto que permeou diversas discussões, ainda que muitas vezes nas entrelinhas, é a incerteza em torno do split payment e do RAD, Regime de Apuração e Distribuição de Créditos.
E não por acaso: estamos falando de mecanismos que impactam diretamente fluxo de caixa, apropriação de créditos e dinâmica financeira das operações, além de exigirem estruturas de controle que ainda não possuem parâmetros totalmente definidos.
Embora previstos no novo modelo, o split payment ainda não possui um cronograma completamente estabelecido, o que gera desafios relevantes para as empresas. O crédito financeiro amplo, um dos pilares do novo sistema, passa a depender de como e quando esse mecanismo será implementado. Sem essa definição, torna-se mais difícil projetar o comportamento do caixa, especialmente em operações com margens mais sensíveis.
Além disso, há a necessidade de garantir o crédito a partir do recolhimento de IBS e CBS pelos fornecedores. Algo que, na prática, ainda não é plenamente controlável pela maioria das empresas e para o qual os sistemas consolidados ainda estão em desenvolvimento e sendo testados pelas Techs.
O RAD surge como uma alternativa para viabilizar essa operacionalização na ausência do split plenamente estruturado, mas também traz suas próprias complexidades. Sua aplicação exige controle rigoroso das informações, integração sistêmica e uma governança de dados ainda mais robusta, além de forte alinhamento entre áreas fiscais, financeiras e de tecnologia.
No fim, esse deixa de ser um tema exclusivamente tributário e passa a ser essencialmente financeiro, estratégico e de TI. Quem controla o fluxo do pagamento, seja via split, seja via RAD, passa a influenciar diretamente o acesso ao crédito e, consequentemente, o caixa da empresa.
Em um cenário de regras ainda em consolidação, a capacidade de simular cenários e antecipar impactos torna-se não apenas um diferencial, mas uma necessidade.
Outro ponto central foi a consolidação de um ambiente cada vez mais digital, integrado e conectado ao fisco.
O Brasil já é reconhecido como um dos sistemas tributários mais digitalizados e automatizados do mundo, com alto nível de cruzamento de dados e monitoramento eletrônico das operações. E esse movimento continua se intensificando, aproximando-se de um modelo de transparência quase em tempo real.
Na prática, isso significa operações mais rastreáveis, cruzamentos automáticos de informações e redução significativa do espaço para inconsistências. O fisco deixa de ser apenas “quem analisa depois” e passa a atuar como parte do fluxo operacional.
Esse cenário traz um novo desafio: a assimetria entre a velocidade do fisco e a maturidade tecnológica das empresas. À medida que a Receita Federal amplia sua capacidade analítica, aumenta também o nível de exigência sobre a qualidade, consistência e integridade das informações.
Assim, o desafio deixa de ser apenas cumprir obrigações e passa a ser operar com o mesmo nível de sofisticação tecnológica do regulador. Em um ambiente altamente conectado, não acompanhar essa evolução não representa apenas risco fiscal, mas representa a perda de capacidade operacional e de previsibilidade.
Se houve um tema que trouxe certo alívio coletivo, foi o avanço da Inteligência Artificial aplicada à área fiscal.
E vale reforçar: não se trata de substituir pessoas, mas de substituir tarefas, especialmente aquelas operacionais, repetitivas e pouco estratégicas. A IA já começa a assumir atividades como classificação fiscal assistida, validação de dados, conciliações, identificação de inconsistências e geração de insights, com ganhos claros de eficiência e redução de erros.
Além disso, avança sobre rotinas do dia a dia, como controle de prazos, emissão de CNDs e fluxos automatizados de pagamento de guias, tarefas historicamente operacionais e pouco estratégicas.
Esse movimento libera tempo e energia das equipes para atividades de maior valor agregado, impulsionando a transição para uma atuação mais analítica e estratégica. E em um ambiente de Reforma isso é de extrema importância.
Na prática, isso redefine o papel do fiscal dentro das organizações. Ele deixa de ser “quem entrega” e passa a ser quem orienta, antecipa e influencia decisões.
E, naturalmente, isso exige um novo perfil de equipe: mais híbrida, mais analítica e, principalmente, mais conectada com o negócio. Porque, no fim, não é sobre fazer mais rápido, é sobre fazer melhor.
E por todos os tópicos trazidos, o Tax Summit 2026 deixou uma mensagem clara: o tributário sai da função de suporte e passa a linguagem de gestão financeira e tecnológica.
Não faz mais sentido tratá-lo como um tema isolado. Ele dialoga diretamente com estratégia, tecnologia, operação, financeiro e até com a experiência do cliente.
A Reforma Tributária acelerou esse movimento.
A tecnologia viabilizou.
O mundo digital exigiu.
E a Inteligência Artificial potencializou.
Diante disso, a pergunta que fica não é mais se a empresa está preparada para a reforma.
A provocação é mais profunda: ela está preparada para operar em um ambiente em que o fiscal faz parte do negócio, em tempo real?
Por isso, os temas trazidos pelo Summit 26 não são mais apenas tendência.
É o novo padrão que começou em 2026.
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