Gestão de equipes na Reforma Tributária: a mudança que começa nas pessoas
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Se no primeiro artigo ampliamos o olhar para entender a Reforma sob a ótica macroeconômica, no segundo organizamos o roadmap estratégico e, no terceiro, mergulhamos na importância dos sistemas durante a transição, agora chegamos ao ponto mais decisivo de todos: PESSOAS. Mais exatamente, a gestão de equipes na Reforma Tributária.
No fim do dia, estratégia não executa sozinha e sistema não pensa. A pergunta que sustenta todos os artigos anteriores é simples e inevitável: quem vai fazer a Reforma acontecer?
Primeiro falamos de macroeconomia. Depois, de governança e planejamento. Em seguida, de arquitetura tecnológica. Agora, é hora de falar da mudança que realmente sustenta qualquer transformação: a evolução da equipe e a sua evolução como gestor e líder.
Durante muitos anos, a equipe fiscal foi treinada para operar dentro de uma lógica muito clara: apuração periódica, conferência de notas, cruzamentos manuais, ajustes reativos e correções pós fato. O foco estava na obrigação acessória, no cumprimento de prazo e na interpretação técnica da norma. Era uma estrutura predominantemente técnico-operacional, baseada em rotina e repetição.
A Reforma muda esse eixo. No modelo de IVA com auditoria assistida, a equipe deixa de ser apenas apuradora e passa a ser auditora de sistema. Será necessário validar parametrizações, acompanhar a cadeia de crédito, monitorar dados em tempo real, analisar inconsistências digitais e trabalhar com BI, dashboards e automação. Sai o “apurador de imposto” e entra o “auditor de sistema e analista de negócio”.
O novo perfil do profissional: do “apurador” ao auditor de sistemas
Essa transição exige uma mudança profunda de perfil: mais analítico, multidisciplinar, orientado a dados e conectado ao negócio. E, no centro dessa transformação, está o gestor. Ele será o mais cobrado.
O líder precisará apresentar cenários para a diretoria, garantir que os sistemas estejam preparados, responder por riscos e resultados. Ao mesmo tempo, terá de liderar uma equipe em evolução, treinar pessoas para um modelo que ele próprio nunca viveu e manter o engajamento em meio à incerteza. O papel do gestor deixa de ser apenas técnico e passa a ser estratégico e formador de talentos. É ele quem conecta conhecimento, tecnologia e pessoas — e quem transforma a mudança regulatória em evolução profissional real.
No meio de toda essa transformação, existe um fator que não pode ser ignorado: a disposição individual para mudar. Sistemas podem ser atualizados. Processos podem ser redesenhados. Mas a evolução real acontece quando as pessoas estão abertas a aprender, a revisar antigas certezas e a assumir novas responsabilidades. A Reforma exige que a equipe amplie sua visão, desenvolva novas competências e aceite sair da zona de conforto.
Estamos em um mundo de evolução constante — tecnológica, regulatória e estratégica. Quem se apegar apenas ao modelo antigo, focado exclusivamente na execução repetitiva e no cumprimento mecânico de obrigações, corre o risco de ficar para trás. Não porque a técnica deixou de ser importante, mas porque ela, sozinha, já não é suficiente.
A mudança de mindset passa por curiosidade intelectual, abertura para novas ferramentas, disposição para aprender sobre dados, tecnologia, finanças e negócio. A Reforma não elimina profissionais; ela seleciona perfis que estejam dispostos a evoluir. E, nesse cenário, a maior vantagem competitiva não será apenas dominar a norma — será estar preparado para crescer junto com a transformação.
Gestão de equipes na Reforma Tributária: o líder como fio condutor
Durante a transição, a evolução tecnológica deixa de ser tendência e passa a ser realidade operacional. Robôs farão cruzamentos de informações em segundos, a IA ajudará a identificar inconsistências, modelos preditivos apoiarão decisões e a automação reduzirá tarefas repetitivas que antes consumiam horas da equipe.
Ignorar essa evolução é, na prática, escolher ficar para trás. Mas é importante reforçar: IA não substitui julgamento técnico, ela apenas amplia a capacidade analítica. Tecnologia sempre será ferramenta. Sua função é liberar tempo para análise, estratégia e tomada de decisão, além de reduzir riscos de erros operacionais. Contudo, isso só acontece quando o humano entende a lógica por trás do algoritmo, sabe interpretar alertas, decide conscientemente sobre risco e parametriza o sistema de forma adequada.
A ferramenta executa; é o profissional que calibra, válida e transforma dado em decisão. A equipe precisará evoluir para esta modalidade de trabalho o analista será de fato analista na significância da palavra e não um operador de planilha em que o check é sempre ‘zero’.
O período mais desafiador será, sem dúvida, a transição. Durante a convivência de regimes, a realidade será de trabalho dobrado, pressão por precisão absoluta, alto nível de rastreabilidade e necessidade de controle fino entre sistemas, fiscal e contábil. Não haverá espaço para erro simples, porque a margem de tolerância diminui quando dois modelos coexistem.
É justamente nesse cenário que a mudança de mentalidade se torna inevitável. A equipe precisará migrar de uma lógica de retrabalho manual para uma postura de auditoria preventiva; sair do foco excessivo em “preencher” e cumprir obrigação para assumir o papel de analisar, validar e antecipar riscos. A evolução da equipe passa pela capacidade de interpretar dados, identificar inconsistências antes que virem problema e atuar estrategicamente sobre o sistema. A transição não exige apenas mais esforço — exige um novo nível de maturidade analítica.
Dentro desse cenário de alta evolução tecnológica, o papel do gestor ganha uma dimensão ainda mais enriquecedora. Não será apenas o responsável por entregar resultado técnico, mas o fio condutor da transformação da equipe.
Caberá a ele guiar essa evolução, manter o time motivado em meio à pressão da transição, redistribuir atividades conforme o nível de automação aumenta e identificar perfis que se adaptam melhor às novas demandas analíticas e tecnológicas.
Alguns profissionais se destacarão na leitura de dados, outros na parametrização sistêmica, outros na visão de negócio e outros em implementação de projetos. O gestor precisará enxergar essas diferenças e redirecionar talentos de forma inteligente, promovendo equilíbrio entre operação, análise e estratégia.
Em um ambiente de alta tecnologia, a liderança deixa de ser apenas técnica e passa a ser também organizacional e humana. É o gestor quem garantirá que a equipe não seja engolida pela complexidade, mas evolua junto com ela — transformando pressão em desenvolvimento e tecnologia em vantagem competitiva. Lembrando que o próprio gestor precisa estar disposto a mudar a forma de pensar e interagir com as novas inteligências e aprendê-las de uma forma que possa repassar o conhecimento para frente. Ou seja, ser exemplo, ser líder e tomar as rédeas do novo mundo.
O desafio da maturidade analítica durante a transição
Se a transição será o período mais turbulento, o cenário pós-transição tende a ser estruturalmente mais simples e, ao mesmo tempo, mais sofisticado. Um sistema mais padronizado, com menos cumulatividade, menos guerra fiscal, menos exceções e maior previsibilidade regulatória deve trazer um ambiente tributário mais organizado e sistematizado. A complexidade caótica dá lugar a uma lógica mais clara. E isso, sem dúvida, é uma boa notícia.
Mas há um ponto essencial: equipe não será menos necessária, será mais qualificada. Com um sistema tributário mais simples e altamente automatizado, o trabalho deixa de ser operacional e passa a ser predominantemente estratégico. Se antes grande parte do tempo era consumida na apuração e no retrabalho, agora a energia estará concentrada em análise, projeção, planejamento e apoio à decisão.
Em um ambiente de alta tecnologia, o diferencial passa a ser o conhecimento analítico. A equipe precisará desenvolver um censo ainda mais aguçado de previsibilidade, entender impactos econômicos antes que eles apareçam no resultado, antecipar riscos, dialogar com áreas estratégicas e contribuir para decisões de negócio. O perfil muda não apenas dentro da área tributária, mas dentro da empresa como um todo.
O profissional de Tax deixa de ser o guardião da norma e passa a ser um intérprete de dados, um analista de cenário e um parceiro estratégico. A equipe do futuro não será definida pelo volume de obrigações que executa, mas pela capacidade de gerar inteligência para o negócio. E essa é, talvez, a maior transformação da Reforma: não apenas simplificar o sistema, mas elevar o nível das pessoas que o operam.
Se existe um ponto central que precisa ficar desta série é este: a equipe precisa evoluir. Sair do modelo focado em copiar e colar, conferir obrigação e resolver autuação, para assumir um papel muito mais amplo — entender o negócio, projetar cenários, avaliar impacto econômico e participar de relatórios estratégicos.
A Reforma não elimina o fiscal. Ela exige um profissional do fiscal melhor. Um colaborador multidisciplinar, com conhecimento de finanças, noção de margem e pricing, entendimento de supply chain, fluência em dados e capacidade de dialogar com tecnologia. Porque, definitivamente, não basta saber a lei. É preciso entender o negócio.
Ao longo desta série percorremos uma jornada clara: começamos na macroeconomia, estruturamos estratégia e governança, mergulhamos em sistemas e chegamos às pessoas. Macro → Estratégia → Sistemas → Pessoas.
Então, no fim das contas, a maior transformação da Reforma não é tributária – é cultural. E é exatamente a partir dessa mudança de mentalidade que iniciaremos a próxima série, agora com um olhar mais técnico e analítico sobre os desafios práticos que vêm pela frente.
A transformação da área tributária passa pelas pessoas
A Reforma Tributária exige muito mais do que adequações de sistemas, processos e obrigações. Ela também demanda uma profunda transformação na forma como as equipes tributárias atuam, se desenvolvem e geram valor para as empresas.
Para aprofundar essa discussão, conversei com Daniel Mascareñas, Head of Tax na Ale Combustíveis e professor da FGV. Na entrevista a seguir, ele compartilha sua visão sobre o futuro da profissão, o papel da tecnologia, os desafios da liderança e as competências que serão cada vez mais importantes para os profissionais da área.
Pergunta: A equipe tributária está preparada para migrar de uma atuação operacional para uma postura analítica e estratégica?
“Acredito que a equipe tributária, de modo geral, já vem buscando uma migração gradual de uma atuação operacional para uma postura mais analítica e estratégica.
Quer saber como podemos ajudar você no recolhimento de tributos?
Hoje, é comum vermos áreas dentro do departamento fiscal dedicadas ao consultivo e ao planejamento tributário, reforçando esse novo posicionamento.
O setor tributário já foi reconhecido como um departamento estratégico nas empresas, e essa percepção cresce a cada ano.
No entanto, ainda existem profissionais presos à rotina operacional, mesmo ocupando cargos de analista, mas que, na prática, pouco analisam e focam apenas na execução.
Esses profissionais, em sua maioria, ainda não estão 100% preparados para essa migração.
O desenvolvimento de habilidades analíticas e o entendimento do negócio são essenciais para essa transformação.
Vejo que esse movimento como um processo contínuo, que demanda investimento em capacitação e mudança de mindset.”
Pergunta: Como será o equilíbrio entre automação e julgamento técnico humano?
“O equilíbrio entre automação e julgamento técnico humano será fundamental na nova era tributária.
A automação vem avançando rapidamente, especialmente em tarefas rotineiras e repetitivas, liberando tempo da equipe tributária para focar em atividades de maior valor agregado.
No entanto, o julgamento técnico humano continua indispensável para interpretar normas, analisar cenários complexos e tomar decisões estratégicas. A tecnologia é uma aliada que potencializa o trabalho dos profissionais, mas não substitui o olhar crítico e a experiência que só o ser humano pode oferecer.
O grande desafio está em capacitar as equipes para tirar o melhor proveito das ferramentas tecnológicas, sem abrir mão da análise aprofundada e do raciocínio estratégico.
O caminho é integrar automação e conhecimento técnico de forma complementar, otimizando tempo e recursos para gerar melhores resultados para as empresas.”
Pergunta: A formação atual dos profissionais de Tax dialoga com dados, tecnologia e finanças?
“A formação atual dos profissionais de Tax está evoluindo, mas ainda enfrenta desafios para dialogar plenamente com dados, tecnologia e finanças.
Observo uma crescente demanda por conhecimentos em análise de dados e sistemas digitais, reflexo das transformações no ambiente tributário.
No entanto, muitos cursos e graduações ainda são bastante tradicionais e pouco integrados a temas de tecnologia e finanças corporativas.
Isso faz com que boa parte do aprendizado sobre ferramentas analíticas e sistemas ocorra no próprio ambiente de trabalho.
A tendência é que, cada vez mais, o profissional de Tax precise dominar não apenas o arcabouço legal, mas também interpretar dados e compreender impactos financeiros.
A formação ideal precisa ser multidisciplinar, abrangendo direito, contabilidade, tecnologia e finanças. Assim, o profissional estará mais preparado para atuar de forma estratégica no contexto atual da área tributária.”
Pergunta: A liderança está pronta para conduzir uma mudança que redefine o papel da própria área?
“A liderança tributária está, assim como o próprio setor, passando por um momento de redefinição de papel.
Percebo que muitos líderes já reconhecem a importância de conduzir essa transformação, dedicando-se a buscar conhecimento, se atualizar e realinhar suas estratégias diante das novas demandas do ambiente tributário.
Para que a mudança seja efetiva, é fundamental que a liderança seja a primeira a adotar e impulsionar essa nova mentalidade.
No entanto, ainda noto que boa parte do investimento em capacitação e mudanças está concentrada nos próprios líderes, faltando direcionamento e recursos para que o restante da equipe também participe desse processo.
Para garantir uma transição bem-sucedida, é essencial ampliar o envolvimento e o desenvolvimento de todos, promovendo uma liderança que inspira e estimula o crescimento conjunto do time tributário.”
Pergunta: Como manter a qualidade de vida e a saúde emocional em meio às incertezas da Reforma Tributária?
“Manter a qualidade de vida e a saúde emocional em meio às incertezas da Reforma Tributária é um grande desafio para os profissionais da área.
Em um cenário de mudanças constantes, é fundamental adotar uma rotina de autocuidado e equilibrar as demandas profissionais com o bem-estar pessoal.
Empresas que oferecem suporte psicológico, promovem ambientes de diálogo aberto e flexibilizam a carga de trabalho contribuem significativamente para esse equilíbrio.
Também é importante investir no desenvolvimento de habilidades emocionais, como resiliência e adaptabilidade.
Buscar informação confiável, compartilhar dúvidas e experiências com colegas e lideranças e reservar momentos para descanso são atitudes que ajudam a reduzir a ansiedade.
O principal é lembrar que ninguém enfrenta esse processo sozinho. Construir redes de apoio faz toda a diferença na travessia desse período desafiador.”
Nos vemos na próxima série de Artigos da temida Reforma! Que não deve ser tão temida assim! Claro, se você estiver preparado para enfrentá-la. Até mais.